Chaebol de verdade: as famílias reais por trás dos doramas
Samsung, Hyundai, LG, SK e Lotte existem fora da tela. Conheça a história dos conglomerados coreanos e os escândalos reais que viraram roteiro de dorama.
Por Redação Drameria · · 5 min de leitura
GuiasTodo fã de dorama conhece o herdeiro de conglomerado: o sobrenome que abre portas, a mansão com motorista, a avó que decide quem pode casar com quem. O que nem todo mundo sabe é que esse personagem é inspirado em famílias que existem de verdade, com nome, endereço e processo na justiça.
Se você ainda está chegando no assunto, comece por o que é chaebol e por que os herdeiros ricos dominam os doramas. Aqui a gente sai da ficção e vai atrás dos chaebol reais, que são bem mais parecidos com as séries do que a gente gostaria.
De onde eles vieram
A Coreia do Sul saiu da guerra, em 1953, como um dos países mais pobres do mundo. Alguns negócios familiares já existiam antes disso: a Samsung nasceu em 1938 como uma pequena casa de comércio em Daegu, vendendo mantimentos e peixe seco. A Hyundai começou em 1946 como construtora.
O salto veio nos anos 1960, com o governo de Park Chung-hee. O Estado escolheu um punhado de empresas familiares para puxar a industrialização e garantiu a elas crédito barato, proteção contra importados e contratos públicos. Em troca, elas tinham que cumprir metas de exportação e entrar nos setores que o governo mandasse: aço, construção naval, química, eletrônicos.
Funcionou. Em duas décadas a Coreia virou potência industrial, e aquelas poucas famílias viraram donas de impérios que atravessam dezenas de ramos. Hoje os maiores são Samsung, SK, Hyundai, LG e Lotte, e juntos respondem por uma fatia enorme da economia do país.
A palavra para esse tipo de grupo é chaebol, que o brasileiro também escreve chebol ou chaelbol quando vai procurar no Google. A grafia oficial em coreano é 재벌, mas o som fica no meio do caminho entre "tchébol" e "tchêbol", então ninguém vai te julgar.
Por que a família manda em tudo
O detalhe que explica os doramas: nos chaebol, a família controla o grupo inteiro com uma fatia pequena das ações. Funciona por participações cruzadas, em que uma empresa do grupo é dona de parte da outra, que é dona de parte de uma terceira, e assim por diante. No fim da cadeia está a família fundadora.
Por isso a sucessão é tão dramática. Não é só herança: quem fica com o controle de uma empresa certa comanda todas as outras. E por isso casamentos importam tanto. Unir duas famílias de chaebol é unir dois conglomerados. A avó que veta a namorada "comum" do herdeiro não está sendo só esnobe, está protegendo um arranjo de poder.
Quando um dorama mostra a família reunida no jantar decidindo o futuro do neto, ele está retratando uma reunião de conselho de administração. A gente explica os papéis de cada um em tipos de chaebol no dorama: família, herdeiro e rivalidade.
Os escândalos que viraram roteiro
A ficção tem que caprichar pra superar o que aconteceu de verdade.
O caso da macadâmia (2014). Cho Hyun-ah, filha do presidente da Korean Air e vice-presidente da companhia, estava na primeira classe de um voo saindo de Nova York quando recebeu macadâmia no saquinho em vez de no pratinho. Ela confrontou a tripulação, mandou o chefe de cabine descer e fez o avião voltar ao portão. O caso virou símbolo da arrogância dos herdeiros, ela perdeu o cargo e foi condenada por obstruir a segurança da aviação. O episódio ecoa em toda cena de herdeiro humilhando funcionário que você já viu.
A guerra dos irmãos da Lotte (2015). O filho mais velho do fundador, Shin Dong-joo, tentou tirar o irmão mais novo, Shin Dong-bin, do comando do grupo, usando o apoio do pai de mais de 90 anos. O mais novo reagiu afastando o próprio pai dos cargos. Os dois trocaram acusações de má gestão e de manipular um pai doente, foram parar na justiça e nunca se reconciliaram. É o enredo de rivalidade entre irmãos de meia dúzia de doramas, só que com nomes reais.
A sucessão da Samsung. Lee Jae-yong, neto do fundador, foi condenado em 2017 por subornar a então presidente Park Geun-hye para facilitar uma fusão que fortalecia seu controle sobre o grupo. Ficou preso, saiu em liberdade condicional, recebeu perdão presidencial em 2022 e, meses depois, foi nomeado presidente executivo da Samsung. O pai dele, Lee Kun-hee, também havia sido condenado e perdoado anos antes. O ciclo escândalo, condenação, perdão e volta ao trono é tão comum que virou piada na Coreia.
O que os doramas fizeram com isso
Reborn Rich (2022) é a adaptação mais direta. Song Joong-ki vive um funcionário fiel da família Soonyang que é traído, morto e renasce como o neto mais novo do fundador. O grupo fictício é um retrato pouco disfarçado da Samsung dos anos 1980 e 1990, e a série fecha o enredo com uma pergunta real: o que acontece quando o herdeiro sabe exatamente como o pai e o avô fizeram fortuna?
The Heirs (2013) pegou o lado romântico: Kim Tan, herdeiro do Jeguk Group, numa escola de elite onde todo aluno é filho de alguém. A briga pela sucessão com o irmão mais velho corre em paralelo ao romance.
Vincenzo (2021) é a versão vilã. O Babel Group, um conglomerado farmacêutico, é tão corrupto que precisa de um advogado da máfia pra ser enfrentado.
A lista é longa, e boa parte dela está em melhores doramas de chaebol pra quem curte romance.
A fantasia e a crítica andam juntas
Tem um paradoxo aqui. Os coreanos admiram as empresas que colocaram o país no mapa e, ao mesmo tempo, se revoltam com os privilégios das famílias que as controlam. O dorama vive dessa tensão: a mesma série que te faz suspirar pelo herdeiro mostra o pai dele comprando juiz.
Pra quem assiste de fora, o chaebol vira só o príncipe moderno. Pra quem assiste de dentro, é notícia de jornal com trilha sonora. As duas leituras valem, e saber a história real deixa a segunda bem mais interessante.
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