Remakes coreanos de séries japonesas: de Boys Over Flowers a Doctor X
Doctor X e Siren's Kiss não são os primeiros: a Coreia refaz séries e mangás japoneses há anos, e o Japão faz o caminho contrário. Os principais remakes e o que muda de um país para o outro.
Por Redação Drameria · · 4 min de leitura
GuiasDois dos doramas mais comentados de 2026 nasceram no Japão. Siren's Kiss, com Park Min-young e Wi Ha-joon, refaz Koori no Sekai, um suspense japonês de 1999. E Doctor X, o fenômeno de outubro com Kim Ji-won, é a versão coreana de Doctor-X: Gekai Daimon Michiko, série que ficou quase dez anos no ar no Japão.
Isso não é novidade. A troca entre as duas indústrias é antiga, intensa e vai nos dois sentidos. Vamos aos casos que mais marcaram.
Os remakes que viraram clássicos
Boys Over Flowers (2009). O caso mais famoso. A história vem do mangá Hana Yori Dango, de Yoko Kamio, que já tinha virado série em Taiwan (Meteor Garden, 2001) e no Japão (2005). A versão coreana, com Lee Min-ho e Koo Hye-sun, foi um terremoto e ajudou a levar os doramas para o mundo. Muita gente no Brasil começou por ela.
Queen of Office (2013). Kim Hye-soo é uma funcionária temporária que sabe fazer absolutamente tudo e não faz nada além do contrato. Soa familiar? É o remake de Haken no Hinkaku (2007), e a semelhança com Doctor X não é coincidência: as duas japonesas vêm do mesmo período e da mesma fantasia da profissional autossuficiente.
Mother (2018). Lee Bo-young vive uma professora que sequestra uma aluna para salvá-la da violência em casa. O original japonês é de 2010, e a versão coreana é considerada uma das melhores adaptações já feitas entre os dois países: mais longa, mais lenta e devastadora.
Tomorrow Cantabile (2014). Adaptação de Nodame Cantabile, mangá que virou um dos j-dramas mais amados dos anos 2000. Aqui a recepção foi oposta: a versão coreana foi comparada o tempo todo com a japonesa e perdeu. É o exemplo clássico de como um remake sofre quando o original é cultuado.
Midnight Diner (2015) e Liar Game (2014). Dois mangás que tiveram séries no Japão antes de ganhar versões coreanas. Liar Game deu certo transformando o jogo em reality show de TV; Midnight Diner teve dificuldade em reproduzir a calma do original.
Fora isso, muita história coreana nasce em quadrinhos japoneses do jeito que hoje nasce em webtoon. To the Beautiful You (2012), por exemplo, vem do mangá Hana-Kimi e é um dos grandes exemplos do tropo da mulher disfarçada de homem.
O caminho de volta
O Japão também refaz doramas coreanos, e o ritmo cresceu nos últimos anos. Signal (2016) virou série japonesa em 2018, assim como Good Doctor. Itaewon Class (2020) ganhou a versão Roppongi Class em 2022, que virou meme dos dois lados pelo jeito literal com que copiou cenas e enquadramentos.
Em 2026 a troca ganhou outra forma: a coprodução. Merry Berry Love, com Ji Chang-wook e a atriz japonesa Mio Imada, conta a história de um designer coreano que vai parar numa ilha japonesa e se apaixona por uma produtora de morangos. Em vez de um país refazer o outro, os dois fazem juntos.
O que muda de um país para o outro
Quem assiste aos originais e aos remakes percebe diferenças que dizem muito sobre cada indústria.
Tamanho. O j-drama costuma ter 10 ou 11 episódios de temporada; o k-drama tem 12 ou 16, de uma hora cada. O remake coreano quase sempre ganha subtramas, especialmente romance.
Romance. É a mudança mais comum. Uma série japonesa pode terminar sem beijo e sem casal formado. A versão coreana raramente aguenta isso e encaixa um par romântico, às vezes com um segundo protagonista para criar triângulo.
Tom. O humor japonês tende ao exagero teatral, com bordão, pose e efeito sonoro. A Coreia costuma trazer a história para um registro mais realista e mais emocional. Doctor X é um bom exemplo: a protagonista coreana é mais seca e mais irritada do que a japonesa.
Família. O dorama coreano coloca a família no centro com muito mais frequência: a mãe que interfere, o pai doente, o segredo de infância. Algumas adaptações ganham episódios inteiros dedicados a isso.
Por que tantos remakes agora
O motivo é o mesmo que fez o webtoon dominar a indústria: risco. Produzir um dorama ficou caro, e uma história que já deu certo em outro lugar vem com público testado e estrutura pronta. Para as plataformas de streaming, que vendem a mesma série para vários países, um título com fãs no Japão e na Coreia ao mesmo tempo é ouro.
Também tem a questão do tempo. Muita série japonesa dos anos 1990 e 2000 é desconhecida das gerações mais novas, inclusive na Coreia. Para esse público, o remake não é cópia, é estreia.
E tem a história. A relação entre Japão e Coreia é complicada, marcada pela ocupação japonesa de 1910 a 1945, tema que aparece em doramas da era colonial. A troca cultural das últimas décadas, com remakes, coproduções e atores circulando entre os dois países, é uma das formas mais visíveis de aproximação entre os dois públicos. Não resolve o passado, mas mostra como a ficção atravessa fronteiras que a política ainda não atravessou.
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