Doramas da era colonial: o que é Gyeongseong e por que os anos 1930 voltaram
100 Dias de Mentira se passa em 1932, no Gyeongseong da ocupação japonesa. Entenda o período, por que ele é tão delicado na Coreia e os doramas que se passam nessa época.
Por Redação Drameria · · 4 min de leitura
Guias100 Days of Deception, que no Brasil apareceu como 100 Dias de Mentira, estreou em outubro de 2026 com Kim Yoo-jung e Park Jin-young e começou devagar na audiência, mas cresceu episódio a episódio. A história se passa em 1932: uma batedora de carteiras habilidosa aceita uma missão do movimento de independência e se infiltra por 100 dias num órgão do governo colonial, fingindo ser intérprete. Lá dentro, conhece um intérprete de elite ligado ao governo, e os dois constroem uma relação feita de desconfiança e segredo.
Se o nome Gyeongseong, que aparece o tempo todo na série, te deixou confuso, aqui vai o contexto.
O que foi a era colonial
De 1910 a 1945, a Coreia foi colônia do Japão. A anexação acabou com o Império Coreano, herdeiro da dinastia Joseon que aparece nos sageuks, e começou um período que os coreanos lembram com muita dor: repressão política, trabalho forçado, proibição progressiva da língua coreana nas escolas e, nos anos finais, até a obrigação de adotar nomes japoneses.
Gyeongseong era o nome oficial de Seul nessa época. Na prática, era uma cidade dividida: de um lado, a modernidade importada, com bondes, cafés, cinemas, rádio, moda ocidental e jazz; do outro, a vigilância policial, a censura e a resistência clandestina. É essa mistura que faz o período ser irresistível para a ficção.
Por que o tema é tão delicado
Na Coreia, a ocupação japonesa não é passado distante. Há famílias que ainda lembram dos avós que viveram aquilo, há disputas diplomáticas abertas sobre indenizações e há uma vigilância grande do público sobre como a época é retratada. É por isso que muitos coreanos não gostam de ouvir a palavra dorama, de origem japonesa, para falar das próprias séries.
Uma série de época que erra o tom paga caro. Em 2021, Joseon Exorcist foi cancelado depois de apenas dois episódios por causa de críticas à forma como retratou a história coreana. Quem escreve sobre Gyeongseong sabe que qualquer personagem que colabora com o governo colonial, qualquer romance entre lados opostos e qualquer detalhe de figurino vai ser analisado.
Isso explica por que 100 Days of Deception escolhe uma protagonista do lado da resistência e trata o romance com o colaboracionista como algo cheio de culpa. É o equilíbrio que o público coreano costuma exigir.
Doramas que se passam nessa época
Bridal Mask (2012). Joo Won é um policial coreano que trabalha para o governo colonial e persegue um justiceiro mascarado, até descobrir quem está por trás da máscara. É baseado num mangá coreano clássico (manhwa) e é um dos melhores exemplos do herói dividido entre dois lados.
Chicago Typewriter (2017). Uma história atual, com Yoo Ah-in como um escritor famoso, que vai revelando vidas passadas dos personagens nos anos 1930, como jovens da resistência. Mistura fantasia, romance e história de um jeito que funciona muito bem.
Hymn of Death (2018). Minissérie curta com Lee Jong-suk e Shin Hye-sun sobre um caso real dos anos 1920: o dramaturgo Kim Woo-jin e a cantora Yun Sim-deok, a primeira soprano da Coreia. É trágica, bonita e rápida de ver.
Gyeongseong Creature (2023–2024). Park Seo-joon e Han So-hee na primavera de 1945, meses antes da libertação, enfrentando experimentos de um hospital militar japonês. Mistura monstro com história e não alivia nas cenas de violência.
Mr. Sunshine (2018). Se passa um pouco antes, nos anos que levaram à anexação, mas é a melhor porta de entrada para entender o período. Lee Byung-hun e Kim Tae-ri num épico de 24 episódios que muita gente considera um dos melhores doramas de todos os tempos.
No cinema, o período rendeu alguns dos filmes coreanos mais famosos fora do país, como A Criada (2016), de Park Chan-wook, Assassination (2015) e A Era da Sombra (2016). E a série Pachinko (2022), produção internacional falada em coreano, japonês e inglês, conta a mesma época pela perspectiva de uma família que emigra para o Japão.
Por que os anos 1930 voltaram
Três motivos explicam o retorno do período às telas.
O primeiro é estético. Gyeongseong permite figurino de época sem a rigidez do sageuk: terno, chapéu, vestido curto, batom vermelho, salão de dança. Visualmente é um prato cheio.
O segundo é a estrutura de espionagem. Num lugar onde ninguém pode confiar em ninguém, cada conversa é perigosa e cada romance pode ser uma armadilha. É o cenário perfeito para os tropos de inimigos que viram amantes e de identidade secreta.
O terceiro é a memória. A geração que viveu a ocupação está desaparecendo, e a ficção virou uma das formas de manter a história viva para os mais novos, dentro e fora da Coreia.
Se você está vendo 100 Days of Deception e quer mais Kim Yoo-jung disfarçada, vale lembrar que ela já fez outro papel marcante com identidade falsa: em Love in the Moonlight (2016), viveu uma moça que se passa por eunuco no palácio. A gente conta essa e outras histórias em o tropo da mulher disfarçada de homem.
- #k-drama
- #época
- #história da coreia
- #gyeongseong


